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CAPITULO I

EVELYNE

CAPÍTULO I

Evelyne, Ive para quase todos que a cercavam, forçada a ser forte, áspera pelas circunstâncias em que a morte de seu pai a deixara. Mas nunca amarga, nem cruel. Sua inteligência e perspicácia a faziam sentir um tanto de náusea diante da maioria das pessoas. Principalmente sua tia Amélia e sua prima Eudora. Ive se tornou uma moça envelhecida por dentro, apesar de seus vinte e um anos. Numa tarde, em meio ao caminho que levava a seu solar , localizado a duas horas de caminhada do castelo do Conde V. , estacou diante dos três ciganos que a cercaram ...

__. Quero apenas resgatar meu criado! O que ganham amedrontando uma mulher? Não percebem que são covardes e perversos. O que dizer da honra do seu povo?

Diante das gargalhadas e olhares desrespeitosos, a raiva da moça cresceu:

__A única coisa que conseguem é confirmar a péssima reputação que têm!

__. Ora moça, não estamos invadindo sua propriedade, somos convidados do seu primo Conde V.

Ela não se surpreendeu nem um pouco. O Conde V. filho único do irmão do pai de Ive, era um devasso despudorado. Sua conduta desregrada se apoiava no fato de ser o primogênito e único filho, criado para ser o chefe da família Bermington. Sendo extremamente mimado por uma mãe possessiva e indolente, após a morte do patriarca conduziu as propriedades com desleixo, gastando em excessos com várias amantes caras ao mesmo tempo.

Era cruel e desdenhoso com Ive pois havia uma parte da propriedade onde ela vivia com a cunhada do seu pai e sua prima, que por testamento, ele não poderia se desfazer, ao menos que Ive se casasse.

Bom, aqui começa o aprendizado doloroso de nossa heroína. Aos 16 anos quando terminou sua formação no internato, e foi apresentada a Conde V.  Incumbido de introduzi-la na sociedade, ouviu a seguinte avaliação “ Cara prima, se aos dezesseis uma mulher mesmo que não muito bela não desabrocha como um belo lírio, fresco suave e orvalhado. Não deve nutrir altas expectativas, a não ser que tenha uma bela renda garantida. ” A isso Ive reagiu com a selvageria e desdém que os anos de internato lhe ensinaram, além de bordados, tapeçaria, dança, piano, línguas, costura, economia do lar, entre conselhos estranhos e incompreensíveis sobre os deveres de uma esposa e dama da melhor sociedade britânica.

Em verdade, foi essa percepção que a levou ao episódio naquela tarde no acampamento cigano. Distraída por essas reminiscências, ao ponto de não ouvir uma pequena carruagem fechada parando atrás de si. Uma voz quente e segura a despertou:

__ Cavalheiros, deixem a senhorita em paz.

Ive se voltou e viu apenas uma mão amorenada com um anel de pedra azul escuro apoiada na portinhola. Os homens abriram caminho, ela passou por eles pisando duro e bufando. Mas, antes de seguir seu caminho, dirigiu-se ao estranho:

__Aproveite a oportunidade e peça a esses “cavalheiros”, que o consideram tão bem, para libertarem um pobre velho bêbado e doente. Pois a dívida já foi paga. E atirou um saquinho de moedas ao chão, sumindo por entre as árvores como se fosse mágica.

 

Logo mais à noite, ao passar pelo salão do castelo dos V, reconheceu a voz e o anel. A voz da tinha a deteve:

__ Evelyne, você se atrasou para o chá, outra vez. Estamos recebendo visitas e...

Ela girou sobre os calcanhares e disse com simplicidade.

__ Fui surpreendida por alguns ciganos e eu ...

__Ive- A senhora quase gritou- por favor, outras de suas estórias não... não é mais tão engraçado quando já se não é mais criança.

__ Ah, então para não agradá-los com uma inverdade adequada, não os incomodarei por hoje. Não preciso desculpar-me, eu não acrescento muito a essas interações civilizadas. Boa noite.

E saiu, não percebeu o leve sorriso no rosto de Simon L., nem a careta divertida do Conde V., muito menos a tremida feroz dos lábios de Lady Bermington, sua “tia” por casamento. Bom, Eudora que nunca se dá conta de ninguém, além de si mesma, continuou dedilhando o piano ao fundo do salão.

Mais tarde, em conversa com o cavalariço, Simon soube que o velho, um empregado antigo dos Bermington, havia se metido em jogatinas com os ciganos. Nada de surpreendente até aí, mas o fato de uma jovem com estirpe, descer da sua posição e pagar a dívida de um criado pessoalmente.... Isso o intrigou. Convivia com essa classe de pessoas tempo o bastante para entender o que lhes era importante, os compreendia na mesma proporção que os desprezava.

Agora, apresentaremos Simon L. um homem que fez fortuna triplicando de forma inteligente o pequeno legado de seus pais que eram comerciantes. E entendia muito bem que os nobres decadentes e arruinados mantinham negócios com ele por absoluto desespero. Mesmo o Conde V. que o apreciava um pouco mais, jamais deixou de marcar a natural distinção entre os dois.

No entanto, sendo sardônico e muito habilidoso em ler esses tipos humanos, para Simon essas temporadas não eram tão aborrecidas. Principalmente quando havia belas ciganas dispostas a entreter um homem rico e generoso. E como uma benesse a mais, seu tipo atlético, alto, mas esguio, a pele levemente amorenada pelos trabalhos ao ar livre e uma erudição sólida de quem aprendeu a selecionar bons livros, podendo encantar ou rebater olhares e comentários maldosos sobre sua origem com charme e firmeza. De uma forma que as damas sentiam seus espartilhos sufocarem enquanto os nobres engoliam seu chá com dificuldade.

 

 

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